Muita gente considera um grande sacrifício ter que deixar de lado prazeres simples da vida. Reclama do peso, mas não abre mão do fast food, dos doces, da cerveja; reclama que nunca sobra dinheiro, mas não deixa de comprar supérfluos.
Quando o resultado do exame dá positivo para diabetes, muitas pessoas já pensam na hora quantos sacrifícios terão que fazer para seguir uma dieta adequada para sua nova condição.
O diabetes gestacional é uma condição passageira. Geralmente, os níveis de glicemia voltam ao normal depois que o bebê nasce. Mas essa pode ser uma boa oportunidade para mudar alguns hábitos que são nocivos mesmo para quem está completamente saudável, já que existe uma motivação (a saúde do bebê) maior do que qualquer desejo por doces.
Ontem foi aniversário de um dos meus grandes amores, meu irmão mais novo. Temos um ano e meio de diferença, apenas. Fiquei imaginando como seria cansativo engravidar novamente com um bebê de apenas nove meses em casa, e ainda amamentando. Mas essa foi a opção dos meus pais, já que, pela idade da minha mãe, na época, eles não poderiam esperar muito tempo. E ganhei de presente um companheiro para toda a vida...
A comemoração foi com bolo de chocolate. Deixei o marido à vontade para sair da dieta depois de duas semanas à base de arroz integral, saladas e proteínas, mas longe da minha vista. Merecido. Além de ter perdido peso, o regime, somado ao frio que passou por Rio Preto nos últimos dias, trouxe para ele uma gripe forte.
Para mim, depois de algumas semanas, controlar a alimentação já não é um problema tão grande. Nem picar o dedo duas vezes por dia para medir a glicemia. Fazer o marido dormir no sófá do escritório, por causa dos vírus, doeu mais. Depois de alguns anos nessa rotina, fazem falta o carinho no cabelo antes de dormir, aquela carinha de sono ao acordar, até a conversa sem nexo de madrugada. Mas, mais uma vez, havia um motivo maior.
A última vez que dormimos separados foi no final de 2009, quando ele foi convocado a fazer uma cobertura jornalística no Haiti (dois meses antes do terremoto). As noites por aqui pareciam um vazio sem fim. Por lá, enquanto ele dividia um contâiner com o fotógrafo, na base do Exército Brasileiro, muitas crianças dormiam no meio da rua - nuas, sem cobertor, sem travesseiro, perdidas no meio da sujeira e da escuridão.
No começo deste ano (talvez no mês em que ficamos grávidos), foi exibida uma reportagem do Esporte Espetacular sobre a tentativa de recuperação do país depois daquele terremoto que, por apenas algumas semanas de diferença, meu marido não presenciou. O Exército Brasileiro promoveu uma corrida de rua, com a participação dos haitianos, na capital Porto Príncipe, que foi quase totalmente devastada.
No final do percurso, segundo as regras, todos teriam direito a um lanche. Uma grande motivação para um povo que não tem nem água encanada, bebe do esgoto e come biscoitos feitos de barro. A reportagem acompanhou um menino de seis anos, Maurice, que correu os 6 Km, do começo ao fim, ao lado dos adultos e lutando contra o cansaço, como se estivesse competindo por um prêmio valioso. No final, voltou para casa satisfeito com duas bananas e um copo de água, como se não tivesse feito nenhum sacrifício.


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