Pensei em oferecer para a minha filha um último dia de vida intra-uterina bem tranquilo. Não tinha como ser de outra forma. Um bebê com 38 semanas, quase 50 cm e em plena atividade, dentro de uma mãe que nunca chegou aos 50 Kg antes da gravidez. Ar-condicionado, cama, filme na televisão.
Há três mudanças de lua, a avó torcia por um adiantamento. Mas eu pedi que ela me desse um sinal de que estava pronta, de que essa primeira etapa do seu desenvolvimento não fosse interrompida de forma muito brusca, sem que estivesse mesmo preparada para o mundo aqui fora.
Os guias astrológicos apontam os librianos como pessoas diplomáticas, dispostas a avaliar dois lados de uma situação. A cesárea estava marcada para a tarde do dia seguinte: 30 de setembro. Mas como dita o signo, ela resolveu chegar não muito antes do tempo previsto, nem sem antes avisar.
As contrações de treinamento começaram algumas semanas antes. Poucas vezes no dia, sem dores, só eram perceptíveis porque endureciam a barriga. Nessa quinta-feira, estavam diferentes. Da sessão da tarde até o final do show histórico do Rock in Rio, à noite, começaram a ganhar ritmo e intensidade. Bom sinal para o dia que viria.
“Quero colo! Vou fugir de casa!
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito.”
Preferi fazer só um lanche. A orientação era de jejum no dia seguinte, horas antes da cirurgia. E, além do mais, ouvir novamente, ao vivo, mesmo que pela televisão, as músicas que alimentaram nossa alma durante toda a adolescência, foi o suficiente para rechear a noite de boas vibrações.
Nessa noite de 29 de setembro, também me lembrei da referência da minha mãe aos santos do dia, que nos chamaram a atenção pelos nomes - Miguel e Gabriel. O primeiro, por ser o nome do meu irmão. O segundo, nome do meu primo, e do qual sempre me lembro ao ouvir essa música do Legião Urbana. Era também dia de São Rafael, um possível nome para o bebê, caso fosse menino, apesar de já haver outros na família.
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.”
E como se a Isabela não pudesse esperar o dia seguinte, a frequência das contrações foram aumentando junto com o ritmo das músicas. Encerrado o show, a contagem: vinham a cada dez minutos. Alerta. Celular do obstetra desligado. Talvez deixasse para a manhã seguinte mesmo.
Mais contrações, agora com uma dor levinha. Nova ligação. Direto para o hospital e, se não fosse nada, voltaria no dia seguinte. Melhor já levar as malas. No caminho, uma noite iluminada pela lua. Na emergência do hospital, fila. Mas não para uma "mulher em trabalho de parto". Só depois desse diagnóstico, por volta das 10 horas da noite, é que veio a ansiedade.
Mais contrações, agora com uma dor levinha. Nova ligação. Direto para o hospital e, se não fosse nada, voltaria no dia seguinte. Melhor já levar as malas. No caminho, uma noite iluminada pela lua. Na emergência do hospital, fila. Mas não para uma "mulher em trabalho de parto". Só depois desse diagnóstico, por volta das 10 horas da noite, é que veio a ansiedade.
Confirmado. Direto para o centro cirúrgico.
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